Ato-Rede 2021 - provocação
Marketing da Verdade
Miguel Jonathan
A Verdade no início era a palavra de Deus. Que estava registrada nos Livros Santos. E ponto final, não aberta à discussão, era definitiva. E universal, valia aqui e em toda a parte, por todas as eras. Verdade era algo absoluto, uma sólida rocha inabalável em que tudo se assentava. Não era uma questão de crença, simplesmente era inconcebível não se aceitar a Verdade eterna.
Depois veio o Iluminismo, e a Verdade passou a ser o produto da Razão Científica. Que era determinada pela observação, depois que experimentos cuidadosos encerravam as possíveis dúvidas e controvérsias, com consenso dos pares. Veja, consenso, não votação. Mas continuou universal, válida para todos os lugares e tempos. Não havia como duvidar de uma afirmação estabelecida pela Ciência, seria um contrassenso. Só possível de ocorrer com loucos ou idiotas. A rocha tinha mudado, mas continuava sólida, aliás parecia até mais sólida agora.
Nos últimos tempos, a pobre Verdade foi entregue aos marqueteiros de ocasião. Começou com um tal de Goebbels, que há 90 anos atrás descobriu que uma afirmação que é repetida muitas vezes acaba sendo aceita como verdadeira. Tudo que é preciso é dispor de um meio de divulgação eficiente. Quem grita mais alto e mais longe, leva. Depois é só votar, as pessoas vão escolher qual a Verdade que querem comprar hoje. Qual o melhor filme, o melhor político, o melhor remédio.
A Verdade agora é individualizada, tem prazo de validade curto, e só vale até a esquina.

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