Ato-Rede 2021 - provocação
A Vida não é Útil
João Sérgio Assis
Por que está frase de Ailton Krenak é tão difícil de ser compreendida por nós modernos?
Latour, no primeiro capítulo de Ciência em Ação, fala que para estudar antropologicamente a ciência temos que abandonar todas as nossas ideias preconcebidas sobre conhecimento. "Deixai o saber sobre o saber, ó vós que entrais". Latour, de forma genial, adapta o método da antropologia, criado para estudar culturas estranhas à nossa, para o estudo de algo de nossa própria cultura.
Porém esta proposição tem um problema: como a ciência está presente em nossas vidas desde que nos entendemos no mundo, ainda mais para nós que estamos na academia, não basta nos livramos das naturalizações acerca do conhecimento, temos de nos livrar de naturalizações que estão na base da nossa própria cultura ocidental-europeia-capitalista-cristã.
Abro um parênteses, chamar de nossa esta cultura não é um desejo, mas uma constatação. O fato de estarmos na margem, de sermos marginalizados pelo centro e de termos esta cultura mesclada com outras não nos exclui deste universo cultural OECC, pelo contrário não há Centro sem periferia e é na periferia onde as fronteiras com outras culturas vão se diluindo. Fecha parênteses.
Não é possível conhecer antropologicamente a ciência sem nos livrarmos de naturalizações que estão na base do modo de existência ocidental-europeu-capitalista-cristão que "inventou" o que chamamos de ciencia.
"Estamos a tal ponto dopados por essa realidade nefasta de consumo e entretenimento que nos desconectamos do organismo vivo da Terra", escreveu Krenak.
É necessário, portanto, desnaturalizar a propriedade, o trabalho, o dinheiro, o financiamento, o lucro, a utilidade, o individualismo, para que possamos começar a nos dedicar a essa tarefa.
Por que uma ideia tem de ter dono? Por que o trabalho tem de ser útil? Por que algo tem de ser útil para alguém? Por que o trabalho deve produzir lucro para alguém? Por que tudo vira mercadoria?
O fato destas perguntas parecerem ingênuas, tolas até, é o sinal de que a modernidade está tão entranhada em nós que temos dificuldade para realizar o estranhamento antropológico para estudar a ciência.
Como falar "propriedade intelectual" sem desnaturalizar a propriedade, o trabalho, a utilidade? Como falar de "preservação ambiental" sem desnaturalizar o dinheiro, o lucro, o individualismo? Como falar de "vacinas" e "negacionismos" sem exorcizar financiamentos, lucros e a individualidade tóxica?