Ato-Rede 2021 - provocação
Uso Medicinal da Cannabis
Marcia Moraes
Perdi o prazo para o envio das provocações, mas não cheguei a perder o desejo de provocar. Assim, deixo aqui registrado um pinga-fogo para o tema Controvérsias da Cannabis no Brasil. Partindo da proposição feminista de que o pessoal é político, coloco na roda a questão a partir da experiência que vivi nos últimos 3 anos como cuidadora de meu pai idoso, cego, acamado, com Parkinson em estágio terminal. O uso medicinal da cannabis para uma pessoa como meu pai significou melhora exponencial na qualidade de vida: diminuição do severo enrijecimento muscular causado pelo Parkinson, melhora do sono e possibilidade de supressão de algumas substâncias (drogas tarjas pretas) antes usadas no tratamento. Ora, a melhora da qualidade de vida da pessoa que é cuidada implica também na melhora da qualidade de vida de quem cuida e, como sabemos, em nosso mundo machista, são mulheres que fazem o trabalho do cuidado. Portanto, junto da controvérsia da cannabis medicinal em nosso país, há uma questão de gênero, de raça e de classe. Porque o acesso à cannabis é caro, burocratizado, oneroso. Como mulher branca, de classe média, com acesso à internet e a outros bens e serviços, consegui passar pela burocracia da Anvisa e usar a cannabis para cuidar de meu pai. Enquanto não tivermos uma liberação ampla do uso medicinal da cannabis – colocando-a como medicamento a ser dispensado no SUS – seguiremos na opressão às mulheres, na subalternização do trabalho do cuidado. A liberalização ampla e irrestrita do uso medicinal da cannabis é também uma política emancipatória para mulheres que cuidam de pessoas com relações extremas de dependências.

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